Eu não busco apenas o teu centro;
eu quero as tuas bordas, os teus vãos, os teus desvios.
Não me basta a superfície onde o sol bate e te faz reluzir,
eu anseio pela penumbra de quem você foi antes de me conhecer.
Diga-me: quantas vezes você precisou se reinventar para sobreviver ao mundo?
Porque eu me declaro o curador de todas as tuas fases,
disposto a amar o homem que você é hoje,
mas também o menino que ainda se esconde no teu cansaço.
Quando você é rocha, escudo e prumo, eu sou o porto que te celebra a coragem.
Quando o mundo pesa e a tua voz é apenas um sussurro que pede trégua, eu sou o silêncio que não te julga, o repouso que não te cobra pressa.
Quando o riso escapa como um alento e a vida parece simples, eu sou o eco que amplifica a tua alegria.
Aquilo que você chama de cicatriz, eu chamo de escritura.
O que você esconde como defeito, eu enxergo como a chancela da sua raridade.
Não há fragmento teu que me cause espanto,
pois não amo apenas a tua harmonia; eu amo o teu caos,
a tua finitude e a forma como você insiste em ser real em um mundo de vidros falsos.
Se o tempo te marcou, que essas marcas sejam o nosso mapa.
Se a vida te exigiu mil faces, eu amarei cada iteração da tua alma.
Não importa o terreno, a estação ou o desgaste.
Eu não sou visita no teu jardim; sou raiz.
Eu permaneço, imperturbável,
dedicado ao ofício de te amar por inteiro,
em cada sombra, em cada luz,
em todas as versões que você ousar ser.