Eu te vi ali, na moldura daquela tarde,
e o que eu lembrei não coube em palavras.
Você movia as mãos, ocupado com algo que o tempo já apagou,
mas o modo como você habitava o espaço...
ahh... isso ficou tatuado no meu silêncio.
Eu tinha mil frases prontas,
um inventário de perguntas guardadas no peito,
mas a distância de um "oi" parecia um abismo sagrado.
Eu não queria interromper o mundo;
eu só queria o direito de ser a testemunha da sua rotina.
Fazia tanto tempo, não é?
O seu rosto era o mesmo que eu visitava nas memórias,
talvez com um traço novo, uma sombra diferente,
mas a essência ainda era o meu cais.
E aí eu sorri.
Um sorriso sem licença, desses que denunciam a alma,
enquanto você seguia, distraído, sendo o centro do meu universo particular.
Naquele segundo, o relógio cansou de girar.
O tempo parou só para eu decorar o seu movimento.
Quando você saiu do meu campo de visão,
o encanto continuou ali, vibrando no ar que você deixou.
Eu me senti exposto, visivelmente rendido,
um bobo perdido na própria felicidade.
Fiquei pensando se somos isso:
dois barcos que se encontram por erro ou destino,
casos de amor ao acaso que se perdem no reencontro.
Talvez fosse medo de perguntar até mesmo de seus pais,
medo de quebrar o vidro daquela perfeição com a minha voz.
Mas no fim, não importava o que eu não disse.
Importava que eu estava ali,
eternamente bobo,
apenas por ver você sendo você.