POESIAS

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Atestado de dor

Por mais que nos preparemos pra determinadas situações, para melhoro ou pior, o inesperado sempre se aplica ao contexto de nossa realidade. Ainda que não nos espantemos quando o mundo amanhecer irreconhecível, o destino se encarrega de trazer a sozinhez inevitável e, em seguida, despregar o silêncio que grita em vossos corações.
“Quem sou eu no mundo?”. Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história que traçamos em prol do vazio que é viver. E no fim, somos tão bobos, praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Nós vivemos errando em relação ao próximo e temos a sã (in)consciência de acreditar que estaremos sempre certos. Se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado.
Nós, humanos, vivemos apostando corrida. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional; nos clubes, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?”.
Oras, todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente. Porque a alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de vitórias que parecem derrotas e derrotas que parecem vitórias. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar os delírios de viver. Oras, a dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor.

(Iasmim Rodriguez)

Iasmim Rodriguez Autor Iasmim Rodriguez MEU PERFIL
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